quinta-feira, março 31, 2005

DA BAIXADA FLUMINENSE PARA ITAÚNA - As lésbicas de “Senhora do Destino” e a Parada do Orgulho Gay em Itaúna

Quando o último capítulo da novela “Senhora do Destino” foi ao ar, dia 11 de março, o casal de lésbicas Jennifer e Eleonora já não corria mais risco. Seriam “felizes para sempre” e contariam com a aprovação de suas famílias e de boa parte do público que acompanhou a novela. Mas não foi sempre assim na história da Televisão Brasileira: na década de noventa, o público tanto fez, tanto protestou, que a direção da emissora exigiu que o autor da novela Torre de Babel tirasse do ar cenas que mostravam um casal de lésbicas. As moças morreram durante um incêndio em um shopping center. Em 2003, com um casal de garotas colegiais em “Mulheres Apaixonadas”, a discussão foi retomada. Naquele momento, porém, a sociedade já havia passado por diversas transformações em menos de uma década e colocar um casal de lésbicas no horário nobre já não configurava tanto uma transgressão das “leis não escritas” da televisão (que estabelecem o que pode ou não ser veiculado). Tais leis existem como um contrato não-formal entre emissoras e público, e dispõem sobre limites comportamentais que são rompidos ou pressionados a cada programação que vai ao ar. Os responsáveis pela programação da emissora possuem a tarefa de rompê-los, arrastá-los até o ponto em que se estabelecerá o novo limite do tolerável e do moralmente aceitável, e que, por sua vez, será novamente rompido. Cada vez que um limite está próximo de ser ultrapassado, há muita tensão. Se o público não aceitar o rompimento, haverá pressão e certamente a emissora terá que mudar seus planos, recuar até que veja novamente a oportunidade de romper com o mesmo limite.
De forma muito parecida, foi em meio a muito disse-que-me-disse e muita polêmica que a primeira Parada do Orgulho Gay passou por Itaúna, em julho do ano passado. Assim como na televisão, existem leis não escritas entre sociedade e governantes, e, ao eleger seus representantes, a população espera ter seus valores morais salvaguardados. Boa parcela dos cristãos de nossa cidade reagiu ao movimento. Várias pessoas pediram que a Prefeitura impedisse a realização da parada gay.
O que não pensaram, todavia, é que o cancelamento do evento seria apenas uma desculpa para que se pudesse adiar – e não impedir – o confronto com a realidade: o número de homossexuais assumidos aumenta a cada dia.
Esta é uma discussão que não pode mais ser adiada, afinal, como é que a sociedade fará para continuar evitando tanta gente? A discussão torna-se ainda mais áspera entre Igreja e homossexuais, porque existe uma batalha milenar sendo travada entre eles. O que passo a expor é um questionamento da legitimidade desta batalha.
O que se demonstrou, naquele acontecimento específico e isolado, é que pouco importa o quanto o ser humano sofra carecendo de amor e aceitação, porque várias de nossas igrejas têm muita dificuldade de amar. Nas semanas que antecederam à parada, gritos raivosos ecoavam pela cidade: “Isso é uma abominação!”, “Isso é uma cilada do diabo para desmoralizar a Igreja!”, “Que aberração!!”.
A Parada do Orgulho Gay foi algo muito mais sério do que possa ter parecido: de um lado, seres humanos buscando ser aceitos e amados; de outro, a sociedade em teste, a Igreja em teste. O que Jesus faria se estivesse ali presente? Sairia com chicotes expulsando a todos? Não, não creio. Imagino que Ele os tomaria pela mão, um a um, e lhes diria como são queridos, como foram formados de modo maravilhoso no ventre de suas mães. Imagino Jesus tomando cada um pela mão e lhes contando do seu amor infinito.
Pouquíssimo tempo antes que o movimento gay fosse às ruas em forma de Parada, tivemos em Itaúna a “Marcha para Jesus”. É bom que pessoas se reúnam em uma tarde para proclamar por toda a cidade o amor de Jesus. Mas de que adianta sair pelas ruas com um caminhão de som, dançando e cantando que Jesus salva, que Jesus muda vidas e sara feridas? A realidade é que milhares de pessoas morrem por dentro porque muitos membros das igrejas ainda não aprenderam a oferecer amor, carinho e amizade desinteressada.
É dever do Cristão amar aos diferentes, porque Jesus amou toda a humanidade. Rejeitar o próximo não é, nunca foi nem nunca vai ser a melhor maneira de falar sobre o amor de Deus.
Com tudo isso, antes de ser mal interpretada, devo dizer que amo a Igreja de Jesus mesmo com todas as suas falhas, porque eu mesma erro com muita freqüência (embora tente sempre aprender de Jesus, que é manso e humilde de coração)... E é por amar a Igreja que luto contra o farisaísmo, um dos maiores males que assolam nossas comunidades. Se o farisaísmo não for vencido, corremos sério risco de esvaziar o discurso de Cristo. Se a Igreja, vestindo uma falsa capa de santidade, falhar em amar ao próximo, então de nada vale toda a pregação. Se o amor de Jesus, representado pela Igreja, não se mostrar igual para homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, negros, brancos, índios e amarelos, drogados, religiosos, estupradores, assassinos (e assassinados), então se esvazia a mensagem da Graça. Então se crerá que Deus ama a cada um de nós conforme o merecimento, que Ele ama a vítima mais que ao assassino, anulando-se assim a mensagem da Cruz.
O que proponho não é que os cristãos passem a apoiar as práticas homossexuais, mas que vejam e respeitem, por trás delas, o ser humano, criatura divina.
Ainda sobre as leis: não estaria Jesus rompendo com uma porção destes limites quando resolveu agir protegendo a mulher adúltera apesar – e acima – da Lei? E sobre o amor e a aceitação vinculados ao arrependimento do outro: Ele escolheu amá-la antes ou depois de ela ter-se arrependido?